A fotografia sempre fez parte de mim
Chamo-me Pedro Joaquim, tenho 50 anos, e quando penso na minha relação com a fotografia, percebo que ela começou muito antes de eu imaginar que um dia faria dela uma parte importante da minha vida.
Ainda era criança, na escola primária, e já havia qualquer coisa que me levava a querer guardar aquilo que estava a acontecer à minha volta. Lembro-me de, nas visitas de estudo, levar uma máquina fotográfica comigo para tirar fotografias.
Naquela altura era apenas uma criança com uma máquina na mão. Não sabia onde isso me iria levar, nem imaginava que muitos anos mais tarde continuaria atrás de uma máquina fotográfica. Mas olhando para trás, percebo que a fotografia sempre esteve presente em mim.
Foi em 2003 que essa paixão começou a ganhar uma dimensão diferente. Nesse ano nasceu o desportoleiria.net, um projeto ligado ao desporto da região de Leiria, que me levou a começar a fotografar de uma forma mais séria, mais regular e com uma responsabilidade completamente diferente.
Foi aí que comecei verdadeiramente a olhar para a fotografia não apenas como uma forma de guardar momentos, mas também como uma forma de contar aquilo que acontecia dentro de um campo. Quando comecei no desportoleiria.net, tive também a oportunidade de fotografar jogos da Primeira Liga, acompanhando a União de Leiria.

Ainda fotografava com máquina de rolo. Num jogo podia ter um rolo de 24 fotografias e tinha de fazer com que chegasse até ao fim. Não havia dinheiro para comprar mais rolos. Por isso, cada fotografia tinha de ser pensada. Não era possível disparar dezenas de fotografias para depois escolher a melhor. Era preciso olhar, esperar pelo momento certo, pensar no enquadramento e só então carregar no botão. E havia outra coisa que guardo com muito carinho dessa época. Os outros fotógrafos que já faziam aqueles jogos foram fantásticos comigo. Em vez de me verem apenas como um concorrente, não, eles ajudavam-me, davam-me dicas, explicavam-me como procurar um melhor enquadramento, onde me posicionar e como tentar conseguir aquela fotografia que fazia a diferença. Aprendi muito com eles. Foram tempos difíceis, mas foram também tempos de aprendizagem. Hoje, num jogo, podemos facilmente fazer 700 ou 1000 fotografias e escolher depois as melhores. Naquela altura, com 24 disparos, não havia essa possibilidade. Cada disparo contava.
Talvez tenha sido precisamente por isso que aqueles primeiros anos me ensinaram algo que ainda hoje tento levar comigo. Uma boa fotografia não depende da quantidade de fotografias que tiramos, mas da capacidade de reconhecer o momento certo. Foi na fotografia desportiva que encontrei algo que me continua a apaixonar até hoje. O momento que acontece uma vez. Quem vê uma fotografia pode pensar que basta estar no sítio certo e carregar no botão. Mas quem fotografa desporto sabe que não é assim. É preciso estar atento, antecipar, conhecer o jogo, esperar, reagir numa fração de segundo, porque aquele momento pode acontecer apenas uma vez. Um golo, uma defesa, uma queda, uma comemoração, um abraço, uma lágrima, um olhar. São pequenos momentos que duram apenas um instante, mas que podem ficar guardados para sempre.
Depois de muitos anos ligado à fotografia desportiva, chegou a vez de o meu filho mais novo começar a jogar futebol. Como pai, comecei a levar novamente a máquina para os jogos e a fotografar aqueles momentos. Ao perceber a quantidade de fotografias que ia acumulando, surgiu a ideia de as partilhar com os outros pais. Afinal, todos queriam guardar aqueles momentos dos filhos em campo. Foi assim, de forma simples e quase sem dar por isso, que nasceu o FotosComVida, da vontade de fotografar, de partilhar e sobretudo, de guardar memórias que vão muito além dos 90 minutos de um jogo.

Com o tempo, percebi que este projeto me estava a dar algo ainda mais especial. É muito bom ir na rua e ser reconhecido pelos miúdos que fotografei nos jogos. Muitas vezes, cumprimentam-me com um sorriso e chamam-me, carinhosamente, “o senhor fotógrafo”. É um pequeno gesto, mas para mim vale muito. Porque significa que, para eles, já não sou apenas a pessoa que está atrás da máquina fotográfica. Sou alguém que esteve presente em momentos importantes da sua infância, alguém que ajudou a guardar as suas conquistas, os seus golos, as suas alegrias e até aqueles momentos que eles próprios talvez já tenham esquecido. E é isso que está na essência do FotosComVida. Não fotografar apenas o que acontece em campo, mas guardar histórias, emoções e memórias para a vida.
